
- 468 pages
- Portuguese
- ePUB (mobile friendly)
- Available on iOS & Android
eBook - ePub
Crime e Castigo
About this book
TRADUÇÃO DO RUSSO DE ANTÓNIO PESCADA
Raskólnikov, um estudante pobre e desesperado, vagueia pelos bairros degradados de São Petersburgo e comete um assassínio. A vítima é uma velha usurária. Raskólnikov imagina-se um grande homem, agindo por uma causa que está para além das convenções da lei moral e o coloca acima do comum dos mortais. O seu acto é praticado com uma mistura de sangue frio e exaltado misticismo. Mas quando inicia um jogo do gato e do rato com um polícia, Raskólnikov é cada vez mais perseguido pela voz da sua consciência. Apenas Sónia, uma prostituta, lhe concede a possibilidade de redenção.
O crime de Raskólnikov foi inspirado no assassínio de duas mulheres, com um machado, ocorrido em 1865. Mas, pela mão de Dostoievski, transforma-se numa intensa narrativa, um protagonista desenraizado em busca de afirmação, uma obra em que confluem elementos psicológicos, sociais, éticos e filosóficos.
A obra foi inicialmente publicada por capítulos, em 1866, no Mensa- geiro Russo.
«O problema de Dostoievski era este: captar e plasmar as realidades da condição humana numa série de crises extremas e definidoras; traduzir a experiência à maneira do drama trágico – o único modo que Dostoievski considera fiável – e, no entanto, permanecer dentro do ambiente naturalista da vida urbana moderna.» [George Steiner, Tolstói o Dostoievski]
Trusted by 375,005 students
Access to over 1 million titles for a fair monthly price.
Study more efficiently using our study tools.
Information
Segunda Parte
I
Ficou assim deitado muito tempo. De vez em quando, parecia acordar, e nesses momentos notava que já era noite havia muito, mas não lhe ocorria levantar-se. Por fim apercebeu-se de que já clareava o dia. Estava deitado de costas no divã, ainda entorpecido pelo recente delírio. Chegavam-lhe da rua os clamores horríveis, desesperados, que aliás ouvia todas as noites por baixo da sua janela, depois das duas horas. Foram eles que agora o acordaram «Ah! Já os bêbedos saem das tabernas — pensou — passa das duas horas — e de repente levantou-se, como se alguém o tivesse arrancado do divã. — Como! Já passa das duas!» Sentou-se no divã e então lembrou-se de tudo! De repente, num mesmo instante, lembrou-se de tudo!
No primeiro momento pensou que ia enlouquecer. Foi dominado por um frio horrível; o frio era também da febre, que começara havia muito durante o sono. Mas agora foi de repente atingido por tais calafrios que os dentes quase lhe saltavam da boca e tudo nele tremia assim. Abriu a porta e ficou à escuta: em casa estava tudo a dormir. Olhava com assombro para si mesmo e para tudo à sua volta no quarto e não compreendia: como pudera na véspera, ao entrar, não fechar a porta com o gancho e atirar-se para o divã sem se despir e nem sequer tirar o chapéu, que estava ali caído no chão, ao lado da cabeceira. «Se alguém entrasse, o que pensaria? Que eu estava bêbedo, mas…» Correu para a janela. Havia bastante luz, e começou a examinar-se rapidamente, todo, dos pés à cabeça, toda a roupa: não haveria vestígios? Mas assim não era possível: a tremer dos calafrios, começou a despir-se e a examinar toda a roupa. Revirou tudo, até ao último fio e farrapo e, sem confiar em si mesmo, repetiu o exame três vezes. Mas parecia não haver nada, nenhuns vestígios; só no ponto em que as calças, puídas, pendiam em franja, nessa franja havia espessas mancha de sangue coagulado. Pegou num grande canivete e cortou a franja. Aparentemente não havia mais nada. De repente lembrou-se de que o porta-moedas e as coisas que tinha tirado do baú da velha ainda estavam nos seus bolsos! Nem sequer pensara, até àquele momento, em tirá-las e escondê-las! Nem mesmo agora, enquanto examinava as roupas, se lembrara dessas coisas! Que vem a ser isto? Num instante começou a tirá-las e a atirá-las para cima da mesa. Depois de tirar tudo e até virar os bolsos, para se certificar de que não ficava nada, levou tudo para um canto. Nesse mesmo canto, em baixo, o papel de parede estava descolado e rasgado: começou imediatamente a enfiar tudo naquele buraco, por baixo do papel: «Coube! Tudo fora da vista e o porta-moedas também!» — pensava com alegria, soerguendo-se e olhando estupidamente para o canto, onde o buraco ficara mais saliente. De repente todo estremeceu de horror: «Meu Deus — murmurou desesperado — que se passa comigo? Mas isto está escondido? Pois é assim que se escondem as coisas?»
É verdade que não tinha contado com os objectos; pensava que só haveria dinheiro, e por isso não tinha preparado com antecedência um lugar para as esconder. «Mas agora, porque estou eu agora contente? — pensava. — Pois é assim que se escondem as coisas? A razão está a abandonar-me!» Extenuado, sentou-se no divã e logo foi sacudido por um insuportável calafrio. Maquinalmente, puxou o seu velho sobretudo de Inverno, dos tempos de estudante, que estava em cima de uma cadeira, quente mas já em farrapos, cobriu-se com ele, e o sono, e o delírio de novo se apoderaram dele. Adormeceu.
Não tinham passado mais de cinco minutos quando saltou de novo e, frenético, correu outra vez para as roupas. «Como pude adormecer outra vez, se está tudo por fazer? É verdade, é verdade, ainda não retirei a alça do sovaco! Esqueci-me, esqueci-me de uma coisa destas! Uma prova como esta!» Arrancou a alça e rasgou-a depressa em bocados, enfiando-os na roupa da cama, debaixo da almofada. «Farrapos de pano rasgado em nenhum caso levantarão suspeitas; penso que não!» — repetia, de pé no meio do quarto, e com uma atenção tão intensa que lhe doía, pôs-se de novo a procurar à sua volta se não se teria esquecido de mais alguma coisa. A convicção de que tudo o abandonava, até a memória, até o simples raciocínio, começava a atormentá-lo insuportavelmente. «Pois quê, será que já começa, será isto o suplício que já avança? Aí está, aí está, é isso mesmo!» De facto, os retalhos da franja que tinha cortado das calças estavam espalhados no chão, no meio do quarto, à vista do primeiro que entrasse! «Mas o que se passa comigo?» — exclamou outra vez, consternado.
Ocorreu-lhe então uma ideia estranha: que talvez toda a sua roupa estivesse ensanguentada, que talvez tivesse muitas manchas, mas que ele simplesmente não as via, não reparava nelas, porque o seu raciocínio estava enfraquecido, fraccionado… a razão obscurecida… De repente lembrou-se de que também no porta-moedas havia sangue. «Ah! Portanto, quer dizer que no bolso também deve haver sangue, porque quando meti o porta-moedas no bolso ainda estava húmido!» Num instante virou o bolso do avesso, e — assim era — no forro do bolso havia vestígios, manchas! «Quer dizer que a razão ainda não me abandonou por completo, quer dizer que ainda há raciocínio e memória, visto que me lembrei sozinho, e acertei! — pensou, triunfante, respirando profunda e alegremente, enchendo o peito de ar —, foi apenas uma fraqueza da febre, um delírio momentâneo» — e arrancou todo o forro do bolso esquerdo das calças. Nesse momento um raio de sol iluminou-lhe a bota esquerda: na meia que espreitava da bota, pareceu-lhe ver marcas. Descalçou a bota: «Realmente há vestígios! Toda a ponta da meia está impregnada em sangue»; por certo tinha pisado por descuido aquela poça de sangue… «Mas que fazer agora com isto? Onde meter esta meia, os farrapos, o bolso?»
Juntou tudo aquilo e ficou de pé no meio do quarto. No fogão? Mas o fogão é o primeiro lugar onde começam a remexer. Queimar? E queimar com o quê? Nem fósforos tenho. Não, o melhor é sair para qualquer parte e deitar tudo fora. Sim! É melhor deitar fora! — repetia sentando-se outra vez no divã — e agora mesmo, neste instante, sem demora!… Mas em vez disso a sua cabeça inclinou-se de novo para a almofada; de novo o dominou um calafrio insuportável; de novo puxou para si o capote. E durante muito tempo, algumas horas, continuou a delirar, com intermitências, sobre «ir agora mesmo, sem perder tempo, ir a qualquer lado e deitar tudo fora, para longe da vista, depressa, depressa!» Tentou algumas vezes levantar-se do divã, queria pôr-se de pé, mas já não podia. Foi definitivamente acordado por fortes pancadas na porta.
— Abre! Estás vivo ou morto? Isto é que ele dorme! — gritava Nastássia, batendo com o punho na porta —, dias seguidos a dormir, como um cão! É mesmo um cão! Abre lá! Já passa das dez horas.
— Talvez não esteja em casa! — disse uma voz de homem.
«Ah! É a voz do porteiro… Que é que ele quer?»
Saltou e sentou-se no divã. O coração batia de tal modo que lhe doía.
— E quem trancou a porta? — retorquiu Nastássia. — Ih, agora passou a trancar-se! Tem medo que o levem? Abre, espertalhão, acorda!
«O que é que eles querem? Para que veio cá o porteiro? Já se sabe. Resistir ou abrir? Seja o que for…»
Soergueu-se, inclinou-se para a frente e soltou o gancho da porta.
O seu quarto era tão pequeno que podia tirar o gancho sem se levantar da cama.
Assim era: ali estavam o porteiro e Nastássia.
Nastássia olhou-o de um modo estranho. Ele lançou ao porteiro um olhar de desafio e de desespero. Este, em silêncio, estendeu-lhe um papel cinzento, dobrado ao meio, selado com lacre das garrafas.
— Um aviso, da secretaria — disse ele, entregando-lhe o papel.
— De qual secretaria?…
— Quer dizer que te chamam à polícia. Já se sabe qual secretaria.
— À polícia!… Para quê?…
— Como é que eu hei-de saber? Chamam-te, vai. — Olhou-o com atenção, olhou em volta e voltou-se para sair.
— Pelos vistos estás mesmo doente? — observou Nastássia, sem desviar o olhar. O porteiro também voltou a cabeça por um momento. — Está com febre desde ontem — acrescentou ela.
Raskólnikov não respondia e segurava o papel na mão, sem o abrir.
— Então não te levantes — continuou Nastássia, compadecendo-se e vendo que ele baixava os pés do divã. — Se estás doente, não vás: não há pressa. O que é isso que tens na mão?
Ele olhou: na mão direita segurava os farrapos cortados das calças, a meia e o forro do bolso arrancado. Tinha assim adormecido com aquilo na mão. Ao pensar no assunto mais tarde, lembrava-se de que mesmo meio adormecido com a febre, apertava tudo aquilo na mão com toda a força e assim voltava a adormecer.
— Ora vejam os farrapos que ele apanhou e dorme com eles, como se fosse um tesouro… — E Nastássia riu-se às gargalhadas, no seu riso doentio e nervoso. Ele enfiou tudo instantaneamente debaixo do capote e ficou de olhos cravados nela. Ainda que naquele momento pouco pudesse raciocinar, sentia que não tratariam assim uma pessoa se a fossem prender. «Mas… a polícia?»
— Bebias um chá? Queres, ou não? Eu trago, ainda há…
— Não… eu vou lá: vou agora mesmo — murmurou ele, pondo-se de pé.
— Agora nem consegues descer a escada.
— Vou…
— Como queiras.
Nastássia saiu atrás do porteiro. Raskólnikov correu imediatamente para a luz para examinar a meia e os farrapos: «Há manchas, mas não são bem visíveis; está tudo sujo, perdeu a cor, desbotou. Quem não souber, não distingue nada. Portanto, a Nastássia não ...
Table of contents
- Nota acerca das Personagens do Romance Crime e Castigo
- Crime e Castigo
- Primeira Parte
- Segunda Parte
- Terceira Parte
- Quarta Parte
- Quinta Parte
- Sexta Parte
- Epílogo
Frequently asked questions
Yes, you can cancel anytime from the Subscription tab in your account settings on the Perlego website. Your subscription will stay active until the end of your current billing period. Learn how to cancel your subscription
No, books cannot be downloaded as external files, such as PDFs, for use outside of Perlego. However, you can download books within the Perlego app for offline reading on mobile or tablet. Learn how to download books offline
Perlego offers two plans: Essential and Complete
- Essential is ideal for learners and professionals who enjoy exploring a wide range of subjects. Access the Essential Library with 800,000+ trusted titles and best-sellers across business, personal growth, and the humanities. Includes unlimited reading time and Standard Read Aloud voice.
- Complete: Perfect for advanced learners and researchers needing full, unrestricted access. Unlock 1.4M+ books across hundreds of subjects, including academic and specialized titles. The Complete Plan also includes advanced features like Premium Read Aloud and Research Assistant.
We are an online textbook subscription service, where you can get access to an entire online library for less than the price of a single book per month. With over 1 million books across 990+ topics, we’ve got you covered! Learn about our mission
Look out for the read-aloud symbol on your next book to see if you can listen to it. The read-aloud tool reads text aloud for you, highlighting the text as it is being read. You can pause it, speed it up and slow it down. Learn more about Read Aloud
Yes! You can use the Perlego app on both iOS and Android devices to read anytime, anywhere — even offline. Perfect for commutes or when you’re on the go.
Please note we cannot support devices running on iOS 13 and Android 7 or earlier. Learn more about using the app
Please note we cannot support devices running on iOS 13 and Android 7 or earlier. Learn more about using the app
Yes, you can access Crime e Castigo by Fiódor Dostoievski, António Pescada in PDF and/or ePUB format, as well as other popular books in Literature & Classics. We have over one million books available in our catalogue for you to explore.