O Jogador
eBook - ePub

O Jogador

  1. 184 pages
  2. Portuguese
  3. ePUB (mobile friendly)
  4. Available on iOS & Android
eBook - ePub

About this book

TRADUÇÃO DO RUSSO DE ANTÓNIO PESCADA O que pode acontecer quando a paixão pela roleta se cruza com a paixão pela mulher amada?É esse conflito que Dostoievski aborda neste romance, memórias de um jovem que faz parte do séquito de um general russo instalado em Roletenburgo, à espera de uma herança que nunca mais chega.Trata-se de um grupo de personagens ligadas pela cupidez, a ambição, o fracasso, o amor e a memória de faustos passados, vivendo um jogo de luz e sombra em que quase nada é o que parece.Há um lado biográfico em O Jogador.Em 1863, quando viajava ao encontro de Paulina Suslova, a grande paixão amorosa da sua vida, que vivia então em Paris, Dostoievski, endividado e alucinado pelo enriquecimento súbito, tentou a sua sorte nas roletas de Wiesbaden. Ganhou, perdeu, recuperou e retomou o caminho para Paris.Mas na viagem que fez com Paulina procurou de novo as intensidades da roleta em Baden-Baden, onde perdeu tudo o que tinha, incluindo o seu relógio e o anel de Paulina.Inventou um sistema para ganhar que falhou em Bad Homburg, obrigando-o a voltar sozinho a São Petersburgo.No ano seguinte, Dostoievski ditara em vinte e seis dias o seu romance O Jogador a uma jovem estenógrafa, Ana Grigorievna, que viria a ser a sua segunda esposa.

Trusted by 375,005 students

Access to over 1 million titles for a fair monthly price.

Study more efficiently using our study tools.

Information




Capítulo XII

A avó estava impaciente e irritável; era evidente que estava obcecada pela roleta. Em relação a tudo o resto estava desatenta e em geral extremamente distraída. Por exemplo, durante o caminho não fez perguntas sobre fosse o que fosse, ao contrário do que fizera antes. Ao ver uma carruagem luxuosa que passava ao nosso lado num pé de vento, levantou a mão e perguntou. «O que é aquilo? De quem é?» — mas ao que parece nem escutou a minha resposta; as suas reflexões eram constantemente interrompidas por movimentos e expressões bruscas e impacientes. Quando lhe indiquei de longe, já perto do casino, o barão e a baronesa Wurmerhelm, ela olhou distraidamente e apenas disse com total indiferença: «Ah!» e, voltando­-se depressa para Potápitch e Marfa, que seguiam atrás de nós, disse­-lhes bruscamente:
— E vocês, porque vêm atrás de mim? Não vou andar sempre com vocês! Vão para casa! Contigo já me basta — acrescentou voltando­-se para mim, quando eles fizeram uma vénia apressada e voltaram para casa.
No casino já estavam à espera da avó. Libertaram imediatamente para ela o mesmo lugar, ao lado do croupier. Eu acho que estes croupiers, sempre tão cerimoniosos e com o ar de vulgares funcionários para quem é indiferente que a banca ganhe ou perca, não são nada indiferentes às perdas da banca e, é claro, recebem instruções para atrair os jogadores e para proteger devidamente os interesses do estabelecimento — e para isso recebem por certo bónus e prémios. Pelo menos, olhavam já para a avó como uma presa. Depois aconteceu aquilo que os nossos tinham previsto.
Eis como as coisas se passaram.
A avó atacou imediatamente o zéro e mandou apostar logo doze fredericos de ouro. Apostámos uma, duas, três vezes, o zéro não saiu. «Aposta, aposta!» — incitava­-me a avó com impaciência. Eu obedecia.
— Quantas vezes apostámos? — perguntou ela por fim, rangendo os dentes de impaciência.
— Já apostámos doze vezes, avó. Perdemos cento e quarenta e quatro fredericos de ouro. Eu digo­-lhe, avó, que até à noite talvez…
— Cala­-te! — interrompeu­-me ela. — Aposta no zéro e agora aposta no vermelho mil florins. Toma, uma nota.
Saiu o vermelho, e o zero voltou a não sair. Devolveram­-nos mil florins.
— Vês, vês! — murmurou a avó —, devolveram­-nos quase tudo o que apostámos. Aposta outra vez no zéro; apostamos mais dez vezes e depois abandonamos.
Mas à quinta vez a avó ficou farta.
— Manda esse zéro imundo para o diabo. Toma, aposta estes quatro mil florins no vermelho — ordenou ela.
— Avó! É muito; e se não sai o vermelho? — implorei; mas a avó por pouco não me batia. (De resto, ela dava­-me tais cotoveladas que quase se pode dizer que me agredia.) Não havia nada a fazer, apostei no vermelho os quatro mil florins que tínhamos ganho antes. A roda girou. A avó estava calmamente sentada, de pescoço esticado, não duvidando de que ia ganhar.
Zéro — anunciou o croupier.
A princípio a avó não compreendeu. Mas quando viu que o croupier arrecadava os seus quatro mil florins juntamente com tudo aquilo que havia em cima da mesa e descobriu que o zéro, que estivera tanto tempo sem sair e no qual tínhamos apostado quase duzentos fredericos de ouro, saía, como que de propósito, quando a avó acabava de o amaldiçoar e abandonar, soltou exclamações e agitou as mãos de tal maneira que toda a sala ouviu. As pessoas em volta até se riram.
— Meu Deus! É agora que o maldito sai! — vociferou. — Olha que malvado, malvado! És tu! A culpa é toda tua! — atirou­-se furiosamente a mim, empurrando­-me. Foste tu que me dissuadiste.
— Avó, eu disse­-lhe o que era sensato, como posso ser responsável por todas as probabilidades?
— Eu dou­-te as probabilidades! — murmurou ela, ameaçadora — Desaparece­-me daqui.
— Adeus, avó — e voltei­-me para sair.
— Aleksei Ivánovitch, Aleksei Ivánovitch, fica! Aonde vais tu? Ora, que é isso, que é isso? Ficou zangado! Parvo! Deixa­-te estar, deixa­-te estar mais um pouco, não te zangues, eu é que sou a parva! Ora diz­-me o que devo fazer agora!
— Eu, avó, não vou começar a dizer­-lhe o que fazer, porque depois a senhora acusa­-me a mim. Jogue a senhora; diga­-me e eu aposto.
— Bem, bem, põe mais quatro mil florins no vermelho! Aqui está a carteira, toma. — Tirou a carteira da bolsa e entregou­-ma. — Tira lá depressa, estão aqui vinte mil rublos em dinheiro.
— Avó — murmurei —, tanto dinheiro…
— Tão certo como eu estar viva, hei de recuperar. Joga!
— Jogámos e perdemos.
— Joga, joga, os oito mil!
— Não se pode, avó, o máximo é quatro mil!…
— Pois joga quatro!
Desta vez ganhámos. A avó animou­-se.
— Vês, vês! — disse ela tocando­-me com o cotovelo. — Joga outra vez quatro mil!
Apostámos e perdemos; depois perdemos e voltámos a perder.
— Avó, já se foram os doze mil — informei­-a.
— Bem vejo que já se foram todos — disse ela numa espécie de calmo furor, se assim se pode dizer —, vejo, meu caro, vejo — murmurava ela olhando à sua frente imóvel e como que a meditar. — Ah! Nem que eu morra, joga mais quatro mil florins!
— Mas já não há dinheiro, avó; aqui na carteira estão só as nossas cambiais de cinco por cento e mais algumas letras de câmbio, mas dinheiro não.
— E na bolsa?
— Ficaram alguns trocos, avó.
— Há aqui casas de câmbio? Disseram­-me que se pode trocar os nossos papéis — perguntou a avó resolutamente.
— Oh, todos os que queira! Mas aquilo que perde no câmbio… até o judeu fica horrorizado!
— Disparate! Eu recupero! Leva­-me lá. Chama aqueles paspalhões!
Empurrei a cadeira, apareceram os carregadores, e saímos do casino.
— Depressa, depressa, depressa! — comandava a avó. — Indica o caminho, Aleksei Ivánovitch… escolhe o mais próximo… fica longe?
— É a dois passos, avó.
Mas à esquina da praceta para a alameda encontrámos toda a companhia: o general, Des Grieux e Mlle Blanche com a mãe. Polina Aleksándrovna não estava com eles, Mister Astley também não.
— Ora, ora, ora! Não parem! — gritava a avó. — O que é que querem? Não tenho tempo para vocês!
E seguia atrás; Des Grieux apressou­-se a vir ter comigo.
— Perdeu tudo o que tinha ganho antes e mais doze mil florins dos dela. Vamos trocar as cambiais de cinco por cento — murmurei­-lhe eu apressadamente.
Des Grieux bateu o pé no chão e correu a informar o general. Nós continuámos a conduzir a avó.
— Faça­-a parar, faça­-a parar! — sussurrou­-me o general, frenético.
— Pois experimente o senhor fazê­-la parar — disse­-lhe eu.
— Minha tia! — disse o general aproximando­-se —, ...

Table of contents

  1. Capítulo I
  2. Capítulo II
  3. Capítulo III
  4. Capítulo IV
  5. Capítulo V
  6. Capítulo VI
  7. Capítulo VII
  8. Capítulo VIII
  9. Capítulo IX
  10. Capítulo X
  11. Capítulo XI
  12. Capítulo XII
  13. Capítulo XIII
  14. Capítulo XIV
  15. Capítulo XV
  16. Capítulo XVI
  17. Capítulo XVII

Frequently asked questions

Yes, you can cancel anytime from the Subscription tab in your account settings on the Perlego website. Your subscription will stay active until the end of your current billing period. Learn how to cancel your subscription
No, books cannot be downloaded as external files, such as PDFs, for use outside of Perlego. However, you can download books within the Perlego app for offline reading on mobile or tablet. Learn how to download books offline
Perlego offers two plans: Essential and Complete
  • Essential is ideal for learners and professionals who enjoy exploring a wide range of subjects. Access the Essential Library with 800,000+ trusted titles and best-sellers across business, personal growth, and the humanities. Includes unlimited reading time and Standard Read Aloud voice.
  • Complete: Perfect for advanced learners and researchers needing full, unrestricted access. Unlock 1.4M+ books across hundreds of subjects, including academic and specialized titles. The Complete Plan also includes advanced features like Premium Read Aloud and Research Assistant.
Both plans are available with monthly, semester, or annual billing cycles.
We are an online textbook subscription service, where you can get access to an entire online library for less than the price of a single book per month. With over 1 million books across 990+ topics, we’ve got you covered! Learn about our mission
Look out for the read-aloud symbol on your next book to see if you can listen to it. The read-aloud tool reads text aloud for you, highlighting the text as it is being read. You can pause it, speed it up and slow it down. Learn more about Read Aloud
Yes! You can use the Perlego app on both iOS and Android devices to read anytime, anywhere — even offline. Perfect for commutes or when you’re on the go.
Please note we cannot support devices running on iOS 13 and Android 7 or earlier. Learn more about using the app
Yes, you can access O Jogador by Fiódor Dostoievski, António Pescada in PDF and/or ePUB format, as well as other popular books in Literature & Classics. We have over one million books available in our catalogue for you to explore.